Veneza não é comida
Tive o privilégio de embarcar na magia da Veneza dos anos
1970. Ao final de duas décadas depois, porém, quando ‘apresentei’ a cidade ao
meu marido, ansiosa em voltar a me deparar com o impacto da Praça de São
Marcos, não apenas me surpreendi com as hordas de turistas – nós entre eles -
que nos obrigavam a nos deslocar em blocos, como me decepcionei com a decepção
dele, incapaz de se encantar com cenário tão invadido. Imagina os
que vivem lá?
A calmaria da pandemia, contudo,
proporcionou à cidade uma volta no tempo. Ruas vazias e águas límpidas. Agora,
diante da possibilidade de retorno das turbas, os moradores se manifestam e formam verdadeiros cordões
humanos com as palavras de ordem: “Veneza não é comida”, ou “Não aos grandes
navios”. Ninguém ali quer a repetição do pesadelo que se tornou esse passado
recente.
A questão é que, assim como eu, todos querem o privilégio de conhecer o
lugar resultado da estratégica posição geográfica
de Veneza, que permitiu a expansão entre os mares Adriático e Egeu a partir da
Alta Idade Média. Seu apogeu, na primeira metade do século XV – quando o Brasil
sequer havia sido ‘achado’ pelos portugueses – foi permitido pelo monopólio do comércio
entre Oriente e Ocidente. Comandada
pelos doges, a rica cidade foi erguida sobre um
pântano e salpicada de magníficos palácios e igrejas de fascinante arquitetura
bizantina e passarelas sobre os canais, que proporcionam aos visitantes um mergulho aos tempos
de glória, quebrados pela queda de Constantinopla e pela descoberta, por Vasco
da Gama, do caminho para as Índias.
Nos últimos
70 anos, o que virou uma espécie de museu para o turista ver provocou uma fuga
dos moradores, reduzida de 175 mil a 51 mil. Já a média anual de turistas passa dos 30 milhões, a maioria transportada pelos grandes navios em passeios
de algumas horas. Além de não representarem recursos para a cidade, lotam as
vielas e praças, poluem os canais e contribuem para danificar as já fragilizadas
fundações das históricas edificações que atravessaram tantos séculos. Agora, a
amarga perspectiva de reabertura da cidade aos turistas levou os moradores às
ruas.
A invasão da Praça São Marcos |
E assim como a humanidade ainda tenta se adequar às novas regras impostas pela pandemia, ninguém sabe o que será o amanhã. Há quem aposte no aumento da solidariedade, na maior proteção ao meio ambiente e no aumento do autoconhecimento, capaz de gerar uma sociedade mais justa e igualitária. Também pode ser que tudo continue como antes.
Veneza pode funcionar como um cartão postal desse novo futuro que se avizinha: quem vai ganhar a briga, os moradores ou o poder econômico que empurra a sociedade para situações indesejáveis? Os que pregam o maior controle das emissões e das mudanças climáticas, que na América do Sul têm gerado nuvens de gafanhotos impulsionados pelas ondas de calor, ou o capitalismo selvagem e toda a ideologia que relega a qualidade de vida ao segundo plano?
De minha parte, adoraria poder voltar a uma Veneza humanizada, assim como viver em um país que priorize o bem estar de seu povo, a democracia e a floresta de pé.
Estive em Veneza há dois anos e fiquei preocupado com a poluição enorme dos canais e o excesso de turistas. A cidade é linda e precisa ser preservada. A chegada de navios devia ser proibida.
ResponderExcluirTomara que façam alguma coisa para mudar essa situação catastrófica!
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