Ditadura disfarçada

No que depender do cientista político Christian Lynch há dois cenários à vista para o Brasil. No primeiro, Bolsonaro vai até 2022, incapaz, porém, de se reeleger, pela incompetência pessoal e dos que o cercam. No segundo, “mais provável”, o governo acabará por ter um projeto, vai inventar programas que convençam os eleitores.”Qualquer um aprende com o tempo. Houve um caos na administração porque nem o presidente, seus assessores ou os militares tinham experiência, mas com o tempo pega o jeito. Eles criam formas de perseguir, de fazer relatórios, intimidar servidores, jornalistas, algo que provoque um recuo maior que esse que está aí.”

A conclusão saiu da conversa entre três velhos amigos, Lynch, o colunista da Veja, Ricardo Rangel, e o editor do Meio, Pedro Dória. Regado a cerveja e wisky, o papo navegou pelo momento presente e pelas perspectivas futuras. Houve apenas um consenso: não vai ter golpe. A democracia, contudo, tem cada vez menos cara de democracia. São relatórios para intimidar servidores, tentativas de controle das instituições e criação de uma cultura conservadora/autoritária no lidar com a constituição. O golpe não vem, porém, “eles não vão desistir. Não sei se será uma ditadura disfarçada ou uma versão constitucional do conservadorismo”, arrisca Lynch.

Como lembrou o próprio Dória, Lynch foi o primeiro a perceber que Bolsonaro tinha virado Zorro, o que tem a ver com o auxílio emergencial, com o Centrão, a pacificação com os militares e o silêncio dos olavistas. Para atender os da farda ele nomeia Braga Netto na Casa Civil, ao mesmo tempo em que dá carta branca aos radicais, que orquestram, dentro e fora das redes sociais, o fechamento do Congresso e do STF. “Tudo ao mesmo tempo, o coração dividido entre os filhos, os olavistas e os militares, duros, mas moderados na convivência com a constituição". O blefe do golpe cresceu, até que os milicos passaram a  desmenti-lo.

E a população, que acreditava eleger um conservador, alçou ao poder um reacionário. “Governo reacionário não consegue voltar no tempo e a resultante é a inação. Você corta as ações progressistas, costumes, direitos humanos, cultura e depois não há muito o que fazer. O papel de Bolsonaro é impedir que as coisas aconteçam." A conclusão é que prevalece a ‘inércia do não fazer’, própria de um governo que reage ao que acontecia antes, sem oferecer alternativas.  

Os eleitores, portanto, levaram gato por lebre. Queriam um presidente conservador e elegeram um reacionário. O que ele quer? Até agora, evitar que os trans usem banheiro de mulher, que abortos aconteçam, que todos se armem, que a covid seja tratada com cloroquina, que a Amazônia seja garimpada ou vire pasto e defender a família. Esse último tema, porém, conectado à corrupção.

 

Comentários

  1. Essa foto me lembra Figueiredo em Serra Pelada...

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  2. Bolsonaro, versao 2020 de Figueiredo. Só que naquela época a ditadura, já sem o AI-5 tendia pra democracia. Agora é o contrário

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  3. De fato é um aprendizado. Semelhante ao usado pelos donos das lojas de fé que vão achando os caminhos para extorquir seus clientes com mentiras. É isso! Bolsonaro é um vendedor de banha da cobra.

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