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Brizola, eterno como sua obra

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  Fui atropelada pelos fatos e demorei a prestar minha homenagem pelos 104 anos de Leonel Brizola (1922-1982). Tive o privilégio de acompanhá-lo de perto no seu primeiro governo no Rio de Janeiro, como setorista do Jornal do Brasil. Ao invés de ir diariamente ao jornal, meu rumo era o Palácio Guanabara, em Laranjeiras (pertinho de casa). Vivíamos os estertores da ditadura militar, a cada dia mais enfraquecida, sob a nefasta presidência do general João Batista Figueiredo – que preferia cavalos aos seres humanos. O cerceamento às liberdades começava a se esgarçar. Tanto que manifestações na porta do palácio eram quase que diárias. O povo recuperava seu direito de voz, após longo e tenebroso inverno de proibições, perseguições e prisões por qualquer motivo que pudesse cheirar a luta por direitos. As visitas ao governador eram constantes. Ulisses Guimarães era um que volta e meia batia seu ponto (na foto, de Aguinaldo Ramos, com Tarso de Castro). Ao contrário do que passamos nos ...

Países à mesa ou no cardápio?

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  O discurso mais relevante de Davos, no frio suíço, não foi o do bufão Donald Trump, e sim o do primeiro ministro do Canadá, Mark Carney (foto), em texto escrito pessoalmente, algo raro em falas desse porte. “O mundo não vive uma transição, mas uma ruptura. A chamada ordem internacional baseada em regras está se desfazendo “, ele aponta. Instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) perderam força e a integração econômica passou a ser usada como instrumento de coerção, com tarifas, sanções e cadeias de suprimento que passaram a ser usadas como armas políticas. Carney criticou a tentação de acomodação ao confronto e à crença de que a submissão compra segurança. Ao citar o historiador grego Tucídites, do século V (AC), lembrou que em tempos de rivalidade entre grandes potências os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem. Para países médios como o Canadá (e o Brasil) aceitar essa lógica significaria desaparecer do jogo. A ...

Toffoli fede a enxofre no Caso Master

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  Poderia ser tudo bem mais simples, se o ministro Dias Toffoli se declarasse impedido de ser o relator do Caso Master no STF. Ao trazê-lo à Corte Suprema, porém, o magistrado dava indícios de suas nada republicanas ligações com o banco. Construído pela família de Toffoli, o Resort Tayayá (foto), em Ribeirão Claro (PR), tem até cassino. Cujos atrativos incluem 14 máquinas de vídeo loteria, onde as apostas funcionam como caça-níqueis. É possível, inclusive, jogar blackjack no local, uma aposta com cartas proibida no Brasil. Os jogos de azar presenciais também são proibidos no país. Em 2020, contudo, uma decisão do STF (na ADPF nº 492) – proposta pelo relator Gilmar Mendes e endossada por Dias Toffoli - , permitiu que os estados explorassem as chamadas “vídeo loterias” (as caça-níqueis), nome técnico das maquininhas existentes no Resort Tayayá. Às margens da represa de Xavantes, próxima à fronteira entre o Paraná e São Paulo, as diárias do resort, de arquitetura rústica, chega...

Belzebu no comando

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  Essa história de criação do Conselho de Paz para Gaza é a mais nova armadilha do autocrata Donald Trump. Para começar, seria uma iniciativa para esvaziar a ONU. Além disso, o líder republicano já falou de suas intenções de transformar Gaza num grande resort para endinheirados. (Por sinal, a fortuna de bilionários cresce três vezes mais rápido desde a sua eleição.)  O que ele quer é varrer de lá os mais pobres e fazer ali uma versão Disney 2026, algo que pode interessar a empresários norte-americanos. Não aos que de fato se preocupam com o futuro da humanidade. Onde ele será quem manda. Dá para confiar em alguém que associa sua intenção de controlar a Groenlândia ao fato de não ter ganho o Nobel da Paz? Como se fosse uma premiação decidida pela Dinamarca e não pela renomada (apesar de falha) Fundação Alfred Nobel. E promete taxar os países que não concordarem. Em resposta, a União Europeia congelou o tratado assinado em julho passado, com 15% de taxas à maioria dos pro...

Trincheira contra o bolsonarismo

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  Quando comecei a ler o excelente “Trincheira Tropical”, de Ruy Castro, me impressionei com a força do integralismo no país dos anos 1930 aos 1950. Estudei no colégio de esquerda (que me trouxe uma magnífica visão da história) sobre o  reacionário  movimento, não conseguia entender o por que de tanta adesão popular. Até o poetinha Vinícius de Moraes foi integralista, sem falar de muitos outros intelectuais, como o próprio Plínio Salgado (foto), o mirrado líder do movimento, orador que se agigantava nos palanques. A derrocada do grupo veio do seu abandono por Getúlio Vargas, durante o Estado Novo. Além do conservadorismo e da adoção do mantra “pátria, família e propriedade”, o integralismo tinha pouco em comum com o bolsonarismo. Para começar, o movimento floresceu paralelo ao nazismo e ao fascismo na Europa, quando o próprio Getúlio oscilava entre aderir ao eixo ou aos aliados. Bem ou mal, os europeus tinham princípios nefastos, porém, com uma coerência ideológica ...

Todo cuidado é pouco

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  Quando Bolsonaro foi transferido da cela da Superintendência da PF para a Papudinha – com correspondentes melhorias de condições no local que passou a ocupar -, já começou a pairar no ar um cheiro de prisão domiciliar. O mínimo exigido por seus apoiadores, que continuam a brigar pela anistia geral. Pois no último sábado fomos surpreendidos com o pedido de Habeas Corpus (HC) protocolado pelo advogado Paulo Emendabili Souza Barros de Carvalhosa, que sequer integra a defesa oficial do ex-presidente. O advogado solicitava que o Conselho Federal de Medicina (CFM) avaliasse a unidade prisional onde Bolsonaro está agora, para saber se o preso disporia de condições adequadas para atendimento médico contínuo, com equipes de saúde multidisciplinares. Requeria, também, a possibilidade de uma eventual prisão domiciliar. (Algo que a maioria dos 941.752 presidiários do Brasil, detidos por motivos muito menos relevantes que uma tentativa de derrubar a democracia, poderiam sequer sonhar.) ...

Como reduzir a violência no Rio

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  O novo Mapa do Crime do Rio de Janeiro 2024, produzido pelo Fogo Cruzado e pelo Geni da UFF - feito a partir dos 700 mil registros do Disque Denúncia ligados a tráfico e milícia - agora traz dois tipos de presença dos grupos armados no estado: o do controle e o da influência. O controle é quando o grupo domina uma área, e a influência quando a presença é parcial ou não permanente.  O estudo fornece os subsídios para que governadores resolvam o problema da criminalidade no estado não por operações de matança, como tem ocorrido, sem nenhum resultado, e sim com planos e ações nas ruas que envolvam todas as polícias, a partir de muita investigação e metas. Em 18% das 22 cidades do Grande Rio há presença de grupos armados, 14% deles sob o controle e 4% sob a influência. Isso corresponde a uma área total onde vivem 35% da população da Região Metropolitana do Rio, ou 4 milhões de pessoas. São 3.400.000 sob controle e 600 mil sob influência.   Já a milícia controla 49% das ...