A chegada dos 70

 


(Deixando a política um pouco de lado)

A ideia surgiu quando meu padrinho fez a generosidade de engordar minha conta bancária. Pensei: nada me faria mais feliz do que ficar de quinta-feira – dia do aniversário – até domingo numa fazenda no Vale da Grama. Cenário de alguns dos momentos mais plenos do meu passado.

As filhas toparam completar a conta e entrei em compasso de espera. Um mês antes da data um petscan trouxe trágica revelação: o câncer do meu companheiro tinha voltado. Seria inconsequente a gente se esconder no mato sabendo da doença. Já tinha pago a maior parte da conta e resolvi arriscar.

Por que celebrar a chegada dos 70, se eles me aproximam cada vez mais da decrepitude e do fim da linha? Deixei de lado os pensamentos negativos e me convenci que a data, sim, era oportunidade única para reunir filhas, netos e companheiro num dos lugares que mais amo no planeta Terra.

A semana anterior foi de tortura. Havia o risco da viagem coincidir com os próximos exames médicos. E primeiro o netinho amado apareceu com febre. Depois uma virose na neta tão queridinha provocava febre, vômitos e diarreia. E eu com um resfriado que não largava do meu pé. 

Não é pra acontecer, pensei, ainda sem coragem de cancelar tudo. A filha mais velha passou a questionar os riscos que corriam seus filhos de pegar a virose da prima. Enquanto  problemas financeiros do companheiro ainda atropelaram a reta final. Tudo por um triz.

Resolvi encarar, porém, temendo fechar os olhos para questões de fato importantes. Como se cometesse um pecado mortal. Saímos daqui na quinta de manhã. Arrumei a tralha no carro como se tudo aquilo fosse uma passagem para o céu.

No meio da Dutra o companheiro teve de ser substituído por essa motorista não tão competente. Seguimos. Separamos baladas de Almir Sater – que já davam o clima de roça – para subir a serra. Foi quando a emoção começou a transbordar de tal forma – algo nunca experimentado nas centenas de vezes que fiz o mesmo percurso – que encharcou meu rosto de lágrimas. Seria um prenúncio da nova idade? Haverá espaço para ficar ainda mais emotiva? 

A paisagem verde, a vista da virada da serra descortinada para Visconde de Mauá, a perspectiva de viver o que se anunciava era demais para meu coração até então surrado de incertezas.

Quando chegamos a caçula já estava lá. Íntima do pedaço,  tinha organizado como seria a estadia. Filhas e netos ficaram na casa grande, nós optamos pela privacidade de um chalé.

Daí em diante foi uma sucessão de alegrias e encantamento que eliminaram tudo o que havia antecedido aqueles momentos sagrados. A casa que conheci meio caindo aos pedaços, no fim dos anos 1970, virou a fazenda de aluguel mais charmosa da região. Com ingredientes insuperáveis como as águas sempre cristalinas do Rio Marimbondo e conforto, junto ao melhor e insuperável convívio.

Meus dias começavam nas primeiras luzes do amanhecer, com caminhadas até a Vila de Mauá. Deserta àquela hora. Com raios de sol tingindo o campo de futebol e a igrejinha de 1920, marcas registradas da região. Sensação parecida com a que vivi no Caminho de Santiago, de chegar a pé aos vilarejos. O celular proporcionou registros incríveis, como a maestria da tecelagem de uma teia de aranha com pingos d’água, a luz que começava a iluminar a Pedra Selada ou o casal de idosos sentadinhos no banco à frente de uma casa normanda super restaurada. Natureza e civilização estado de poesia.

Gato em cima do telhado, galinhas d’angola repetindo “tô fraco”, égua dourada namorando seu potrinho, vacas pastando em câmera lenta, pequenas e variadas samambaias misturadas a avencas, pé de limão galego carregado, perfume de lírio...

Voltava para casa antes das crianças acordarem. Uma escadinha de nove meses a 4 anos. Quando todas ainda nos acham o máximo. Baguncinha que trazia felicidade a todos: dos bagunceiros aos bagunçados. Passeios em que um dos melhores momentos era o “oi cavalho” do pequerrucho que faz dois anos em três meses, junto à pequena mãozinha se movendo num gesto de adeus. Encantamento com passarinhos, borboletas, cajados tombados pelo caminho.

E a água congelante do rio cristalino.

Comidas gostosas regadas a vinho tinto na mesa onde havia espaço para todos, alternada a refeições ao sol que coloria e amenizava o frio do capeta, de que tanto gosto.

Ainda bem que não desisti. Abri o portal dos 70 com o que há de melhor: amor, beleza e realização. Ainda não deu para resolver o sério problema de saúde do companheiro, porém, é certo que ele – assim como eu – saiu de lá melhor do que chegou. Vida que segue.

 

 

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