Crime ainda impune



Demorei para ver “Anatomia do caos” (foto), de Dandara Ferreira. Isso porque o documentário só estava em cartaz em Niterói. Na quarta-feira descobri que ele tinha chegado ao NET Rio, em Botafogo, cinema cult que passou meses fechado para obras. A indispensável obra de Dandara sequer consta no Rio Show, do Globo. Não houve crítica ou citação.

Por que será?

Dito isto, logo que comecei a escrever esse blog, em novembro de 2018, no início do ano seguinte já era tomada pela indignação com tudo a que se referia a Jair Bolsonaro. Nada, porém, foi tão intenso quanto sua postura criminosa durante a pandemia da Covid-19. Além do meu próprio umbigo, pelo risco a que ele expôs todos os brasileiros.

Por quê? Para obrigar que a população não deixasse de ir trabalhar, o que certamente causaria uma crise econômica apesar de preservar vidas? E qual poderia ser a explicação para seu discurso – e prática – negacionistas? Economizar dinheiro público com a compra das vacinas?

De caso pensado Bolsonaro atrasou a compra das vacinas, enquanto acobertou esquemas de corrupção quando admitiu que elas eram indispensáveis (embora teimasse em não se vacinar). Engambelou a população com a inócua cloroquina, solução mais barata e rápida de ser obtida pelo governo.

Escolheu para o ministério da Saúde um militar tapado que não tinha ideia do que é o SUS (e lamentavelmente foi o deputado mais votado nas eleições de 2022.) Tudo isso está lá no documentário, com as cenas dantescas das covas coletivas, soterradas por tratores. Dor insuportável. A falta de oxigênio.

O foco central foi a CPI da Covid, que levantou a maior parte dos mal feitos, entretanto foi totalmente desconsiderada pelo PGR puxa saco de Bolsonaro, Augusto Aras. Estão lá a cena obscena do presidente imitando alguém com falta de ar, entre risos, assim como suas frases patéticas, “não sou coveiro”, “chega de mi mi mi”, o risco de virar jacaré com a vacina...

O filho candidato a presidente não ficava atrás nas baixarias. 

E, como destaca a cena final, apesar dos mais de 80 indiciamentos, ninguém foi criminalizado, ninguém foi preso. E a tardia prisão de Bolsonaro, motivada por sua tentativa de golpe de estado, ignorou essa faceta bandida e irresponsável, de alguém que jamais poderia ter presidido esse país.

Obrigada Dandara, você trouxe à tona uma das maiores catástrofes já vividas pelo Brasil, tanto pelos 700 mil mortos – que poderiam ter sido muito menos -, quanto pela generalizada impunidade.  

 

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