O por que do voto com raiva

 


Por que tanta gente vota com raiva? A política brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha e não fecha as contas.

O desemprego está em 5,4%. Mas é só conversar com quem dirige por aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula até três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou. A tranquilidade, não.

O salário mínimo é de R$ 1.621, enquanto o mínimo necessário calculado pelo Dieese supera R$ 8 mil. O trabalhador acorda cedo, corre o dia inteiro e, no fim do mês, decide o que deixará de pagar. Não falta ocupação. Falta dignidade econômica. É aí que surge o ressentimento.

O país repete que os pequenos empreendedores movem a economia, porém, não lhes dá crédito, assistência técnica, compras públicas e condições para crescer. Empurra todo o risco para quem tem a menor margem de erro. Transforma sobrevivência em mérito e falência em fracasso individual.

Ao mesmo tempo, desapareceram muitos dos espaços onde essas dificuldades eram compartilhadas. A organização coletiva enfraqueceu, enquanto a angústia permanece.

A História mostra que, quando insegurança econômica, enfraquecimento da representação e falta de escuta andam juntos, discursos simplificadores (como o de um Pablo Marçal ou de Jair Messias, ambos inelegíveis) encontram terreno fértil. Não por apresentarem diagnósticos melhores, mas por oferecem respostas fáceis para angústias reais.

O brasileiro não rejeita a presença do Estado. Rejeita um Estado que demora, humilha e não entrega. Quer crédito onde encontra burocracia, assistência técnica onde recebe exigências e políticas públicas construídas com quem conhece o problema porque vive nele.

A eleição será decidida por quem conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo, trabalhar duro e acreditar que o amanhã pode ser melhor.

Quando ele encontra quem o represente antes de encontrar quem o resolva a democracia passa a conviver com um problema maior do que uma simples disputa eleitoral.

(Fonte: Preto Zezé)

 

Comentários

  1. Carlos Peixoto Filho
    Esse cenário não é só no Brasil. A riqueza que circula na economia é drenada para aas grandes empresas do setor financeiro e de tecnologia, que, cada vez mais, usam robôs, Uma jovem que trabalha na praia com artesanato e foi proibida pela prefeitura resumiu: eu não vou trabalhar na escala 6 X 1 pra ganhar salário mínimo de passar fome. A privatização da saúde, da educação, do transporte (veja pedágios e parking), habitação (airbnb nas grandes cidades) está inviabilizando a vida de um número considerável de pessoas.

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