Mais vida (desde que) bem vivida

Jornalistas que se prezam têm o cuidado de encaixar seus textos a fatos. Melhor ainda, a efemérides. Quase que esse post se encaixa com perfeição à regra. Apesar de um bocadinho atrasado, não perde a atualidade, porém. No mês passado escrevi falando da importância que os Cieps poderiam ter para o Brasil se tivessem continuidade. E recebi da amiga Andrea Figueiredo os imperdíveis cinco episódios de “O Brasil de Darcy Ribeiro”.

A história de Darcy é paralela à história do Brasil. E vive e versa. Sua existência dá conta do que aconteceu de importante no Brasil durante sua vida (26/10/1922- 17/02/1997). E, ontem, tive o privilégio de receber um epitáfio desse grande pensador, quando Leonardo Boff – a pedidos – o acompanhou em seus últimos momentos, que reproduzo abaixo:   

“Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: "Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos".

Claro que um intelectual de esquerda como ele não poderia usufruir do conforto da fé. Ao que Boff alivia: "Você Darcy, não será recebido por Deus Pai, você será recebido por Deus em forma de uma mãe". E o inquieto Darcy reage "Então serei recebido por uma deusa"! 

Boff completa a imagem, afirmando que Darcy seria recebido de braços abertos e com palavras generosas, algo assim, "Como você demorou! você não queria vir, mas como você veio, você irá de abraço em abraço e de festa em festa, ser apresentado a todos".

Como se sabe, Darcy fugiu do hospital onde se tratava de câncer de pulmão. Ficou de saco cheio daquele monte de fios que o entubavam, controlando o pouco de vida que ainda lhe restava. E preferiu dar de ombros à sobrevivência. Estava disposto a encarar a morte, desde que turbinasse o fio de vida que lhe restava. Completou: "Então será de farra em farra"?

E arrematou: "Como gostaria que fosse verdade"! Lembrou da mãe, que sempre teve muita fé e que morreu tranquila. E confessou: "Eu te invejo por seres um homem inteligente e com fé. Eu não tenho fé. Mas como eu gostaria que isso fosse verdade"!

Ao que ouviu do misto de filósofo e teólogo: “Tua vida foi um só ato de amor, um único ato de amor: atendeste aos famintos, às crianças abandonadas, aos índios marginalizados, aos negros e às mulheres oprimidas e, mais, ninguém louvou tanto às mulheres, quanto você. Quem fez o que tu fizeste terá o reino, a eternidade e a Deus. O amor é o que vale, pois é verdade de vida, enquanto a fé é uma convicção mental".

E Darcy dá o seu último recado: "Então, nos vemos na farra"! 



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