Mais vida (desde que) bem vivida
A história de Darcy é paralela à história do Brasil. E vive e versa. Sua existência dá conta do que aconteceu de importante no Brasil durante sua vida (26/10/1922- 17/02/1997). E, ontem, tive o privilégio de receber um epitáfio desse grande pensador, quando Leonardo Boff – a pedidos – o acompanhou em seus últimos momentos, que reproduzo abaixo:
“Termino
esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais
saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só
digo: "Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para
nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora,
a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e
gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos".
Claro que um intelectual de esquerda como ele não poderia usufruir do conforto da fé. Ao que Boff alivia: "Você Darcy, não será recebido por Deus Pai, você será recebido por Deus em forma de uma mãe". E o inquieto Darcy reage "Então serei recebido por uma deusa"!
Boff completa a imagem, afirmando que Darcy seria recebido de
braços abertos e com palavras generosas, algo assim, "Como
você demorou! você não queria vir, mas como você veio, você irá de abraço em
abraço e de festa em festa, ser apresentado a todos".
Como se sabe,
Darcy fugiu do hospital onde se tratava de câncer de pulmão. Ficou de saco cheio daquele
monte de fios que o entubavam, controlando o pouco de vida que ainda lhe restava.
E preferiu dar de ombros à sobrevivência. Estava disposto a encarar a morte, desde que turbinasse o fio de vida que lhe restava. Completou: "Então será de farra em
farra"?
E
arrematou: "Como gostaria que fosse verdade"! Lembrou da mãe, que
sempre teve muita fé e que morreu tranquila. E confessou: "Eu te
invejo por seres um homem inteligente e com fé. Eu não tenho fé. Mas como eu
gostaria que isso fosse verdade"!
Ao que
ouviu do misto de filósofo e teólogo: “Tua vida foi um só ato de amor, um único
ato de amor: atendeste aos famintos, às crianças abandonadas, aos índios
marginalizados, aos negros e às mulheres oprimidas e, mais, ninguém louvou
tanto às mulheres, quanto você. Quem fez o que tu fizeste terá o reino, a
eternidade e a Deus. O amor é o que vale, pois é verdade de vida, enquanto a fé
é uma convicção mental".
E Darcy dá o seu último recado: "Então, nos vemos na farra"!

Para Darci, haveria de haver um texto maravilhoso. Houve! Que texto lindo.
ResponderExcluirObrigada
ExcluirMindinho Veríssimo
ResponderExcluir" O único clamor da vida, é por mais vida bem vivida", ótimo.
Responder
ResponderExcluirElias Fajardo da Fonseca
Dois grandes brasileiros!
Sim, monumentais!
Excluir