Raio-x da tortura no regime militar

A existência de tortura nos porões da ditadura militar é mais do que conhecida. Porém, “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos americanos”, livro do historiador e professor da USP, Felipe Loureiro, revela como se deu o processo de construção do DOI –Codi, baseado em centenas de telegramas diplomáticos.

Tudo começa quando o general Humberto de Souza Melo, comandante do II Exército no truculento período de Garrastazu Médici, procura a Fiesp, liderada por Theobaldo de Nigris, e convida o presidente da General Eletric do Brasil, Thomas Romanach, para começar a recolher o dinheiro.

Era o primeiro passo para brasileiros começarem a ser triturados em salas de tortura e vozes tentarem denunciar a barbárie, sobretudo no exterior. O equivalente a acionar a raposa para cuidar do galinheiro na 'luta contra a subversão'.

O milico pedia dinheiro para comprar armas, veículos, aparelhos de comunicação e para construir e equipar a sala de torturas. As doações das empresas eram feitas a um falso fundo educacional da Fiesp, com recibo, e repassadas à repressão, como revela o colunista Bernardo de Mello Franco.

Em outra frente, o ICL expôs conexões da repressão com os serviços de informação da Inglaterra, a partir das 23 pastas com três mil folhas de documentos dos arquivos do general Cyro Etchegoyen, do Centro de Informações do Exército.

Dali saiu a Casa da Morte (foto), em Petrópolis - mais tarde desapropriada para virar um centro de resistência militar -, sob o comando do Doutor Bruno. Estima-se que dos 22 assassinatos sobrou apenas Inês Etiene Romeu (1942-2015), que denunciou as atrocidades.

Como relata o colunista Elio Gasperi, os ingleses ensinaram técnicas de interrogatório e, apesar de condenarem a tortura, sugerem detalhes como, “ao ser conduzido para o refeitório – onde o preso chega algemado e encapuzado – são acesos os refletores dirigidos ao seu rosto, é retirado o capuz e ele permanece de pé, algemado.”  E mais: “O preso não dorme ou pode cochilar (...) para a perda de noção de tempo, sem confortos e alimentação mínima para ele não adoecer”.

Nada disso seria considerado tortura...Os ingleses sugerem ainda que a localização do centro deveria ser secreta, o prisioneiro deveria ficar completamente isolado. A apostila cita um interrogatório de 58h de uma militante da VPR.

Até então, conheciam-se colaborações de norte-americanos e de franceses. Dos ingleses, não se sabia. Mais uma vez: buscava-se socorro justamente entre todos os que fomentaram o criminoso esquema de tortura. Por isso não dava resultados.

 

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